Holocausto Contestado:Conferência de negacionistas em Teerão conta com a participação de um português
Janeiro 15, 2008 por verdadehistorica
Daniel do Rosário
O Governo iraniano acolhe, entre segunda e terça-feira, uma conferência para esclarecer se o Holocausto realmente existiu. E há um português que se deslocará a Teerão para ajudar o regime dos «ayatollahs» a chegar a uma conclusão final.
“Completamente irreal”, é como Flávio Gonçalves classifica a possibilidade da Alemanha nazi ter procedido ao extermínio de seis milhões de judeus durante a II Guerra Mundial. Este estudante de história garante não pertencer a qualquer partido, define-se politicamente como sindicalista-revolucionário e eco-anarquista e considera que o Holocausto é “o álibi perfeito” para o Estado de Israel: “qualquer coisa que Israel faça de mal, tem sempre a desculpa do Holocausto. Estão sempre a bater na mesma tecla”, afirmou ao Expresso antes de embarcar para Teerão o único participante luso na conferência ‘Revisão do Holocausto: uma Visão Global’.
A iniciativa, organizada pelo Instituto de Estudos Políticos e Internacionais (IEPI) do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano constituirá uma autêntica peregrinação de revisionistas e negacionistas do mundo inteiro, indivíduos que contestam que a tentativa de extermínio de judeus pela Alemanha nazi seja uma realidade histórica. Um movimento marginal presente principalmente na Europa e Estados Unidos, que recebe assim do actual Governo iraniano um verdadeiro balão de oxigénio no que consideram uma luta pela “liberdade de expressão” nos países em que o negacionismo é crime.
Está confirmada a presença de nomes conhecidos no meio, como o norte-americano Bradley Smith, o francês Serge Thion ou o australiano Fredrick Toben, que já esteve detido durante sete meses numa cadeia alemã por negacionismo e cuja intervenção em Teerão se intitula ‘As alegadas câmaras de gás de Auscwitz - uma análise técnica e química’. Outras referências revisionistas, como o alemão Horst Mahler, viram o seu passaporte ser confiscado pelas autoridades do respectivo país por forma a evitar a deslocação. Segundo Flávio Gonçalves, foi através de Toben que lhe chegou este convite, embora o revisionista português não tenha decidido, ainda, se fará alguma intervenção.
“Se a conferência concluir que o Holocausto existiu, o Irão aceitá-lo-á”, garantiu esta semana Manouchehr Mohammadi, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, ao apresentar o evento. Que acrescentou que, “se tal for o caso”, haverá que passar à questão seguinte que é a de saber “porque é que tem que ser o povo palestiniano a pagar o preço das atrocidades”.
Representantes de 30 países
Os organizadores contam com a presença de ‘pensadores e investigadores’ de 30 países, entre os quais da Alemanha, Áustria, Bélgica, Canadá, Estados Unidos, França, Hungria, Índia, Japão, Quénia, Reino Unido, Suécia, Tajiquistão e até ‘alguns judeus’, embora esteja afastada a presença de participantes israelitas. E embora o leque já conhecido de oradores seja quase exclusivamente composto por negacionistas, Mohammadi garante a presença de defensores das “diferentes teses”.
Esta polémica conferência tem raízes na crise em torno das caricaturas do profeta Maomé, publicadas em jornais europeus no início deste ano e também da controvérsia causada pelas afirmações do Presidente iraniano que se referiu ao Holocausto como “um mito”. Teerão pretende assim desafiar o que considera ser a hipocrisia da “liberdade de expressão” ocidental que permite criticar Maomé, mas não tolera que se questione o Holocausto. Para a vice-presidente da comunidade judaica em Portugal, Esther Mucznik, esta conferência ”não surge por acaso”. O objectivo do regime iraniano, que é o de ”deslegitimar Israel”, tem a ver com a imagem deste país no Médio-Oriente e no mundo árabe ”que nunca o aceitou”.
Expresso, 8 de Dezembro de 2006