Bradley R. Smith
Recordarão que em Outubro último decidimos não despender mais tempo na rodagem de novas imagens para o nosso documentário, O Grande Tabu, e limitávamo-nos a utilizar as filmagens que já temos com a maior imaginação possível de modo a podermos finalmente completar o raio do filme. Burt, o meu principal associado, informou-me que estava de acordo. Pediu-me para ir a Santa Bárbara, onde nos encontraríamos com o nosso editor e teríamos a nossa primeira reunião de pós produção.
Assim fiz. Correu bem. Um pouco antes de nos despedirmos, o Burt perguntou-me se eu não poderia organizar um pequeno evento em Baja, cujo propósito seria o de reunir (ainda mais) algumas filmagens, imagens muito especiais que o mesmo queria utilizar na “formatação” do filme, imagens adicionais do Smith a interagir com estudantes mexicanos. O nosso acordo é que tanto eu como ele temos direitos a um “corte final”, mas que a visão que dirige este filme é dele. O evento que ele queria que eu organizasse era de natureza tão modesta que não tive quaisquer problemas em aceitar. Não seria nada do género do evento que organizamos para o Corto Creativo 07 em Junho, que obteve tanto sucesso. Portanto, afinal sempre íamos rodar mais um pouco de película. Não era crise nenhuma.
Okay.
De regresso a Baja fiquei um pouco apreensivo. Depois do evento de Junho, patrocinado por El (não seria: La?) Universidade de las Califórnias (UDC), todas as pessoas que eu conhecia aqui nos arredores compreendiam que esse evento tinha causado muitos problemas à universidade. É uma cidade pequena, e as coisas espalham-se. Perguntei à Paloma se ela conheceria alguém com o qual eu pudesse falar e que me pudesse aconselhar. Ela deu-me um nome. Alfredo. Informou-me que ele conhecia toda a gente, e que ele é um radical, por isso provavelmente estaria interessado.
Algumas noites mais tarde a Paloma apresentou-me ao Alfredo. Acontece que o mesmo acabou por se revelar uma pessoa muito interessante, um moço energético nos seus 30 e tais. Simpatizei com ele. O mesmo viria à nossa casa no dia seguinte e poderíamos falar melhor. No dia seguinte, lá estava ele. Sentamo-nos na mesa da sala de jantar enquanto bebíamos chá. Esquematizei-lhe as questões e o género de evento modesto que queria organizar. Precisava de um lugar para o fazer, um local de aparência séria e sem muito ruído. Mostrou-se interessado no assunto. Sugeriu um par de cafés, e deu-me dois contactos. Um, Yusuf, produtor de vídeos comerciais, e outro da sua prima, professora numa universidade privada em Tijuana. Assegurou-me que tanto um como a outra eram muito “liberais”. O que, em Baja, é sinónimo de “esquerda radical”.
Nessa mesma noite telefonei a Yusuf e alguns dias mais tarde ele foi lá a casa. Era uma verdadeira fonte de energia. Achou que o meu projecto era muito interessante. A minha principal prioridade era encontrar um local para o evento. O mesmo sugeriu que falássemos com o El Centro Municipal de Arte y Cultura (CEMAC). O CEMAC é um instituto municipal. Disponibiliza o seu espaço a cineastas, providencia um projector e um ecrã, e auxilia também na promoção dos eventos, tudo isto gratuitamente.
Duas manhãs depois encontrei-me com Yusuf no parque antigo no centro de Rosarito em frente do edifício que alberga a pequena biblioteca pública e o CEMAC. Encontramo-nos com a coordenadora, uma senhora que dá pelo nome de Marisol Marino, num pequeno escritório com duas escrivaninhas. Expliquei-lhe que queria levar a cabo uma “conferencia” na qual faria uma pequena locução, mostraria um excerto de 32 minutos do documentário que estávamos a fazer e de seguida responderia a perguntas da audiência. Indiquei-lhe na totalidade a natureza do material, bem como os meus pontos de vista. A Sra. Molina informou-me que o programa que eu estava a delinear era muito semelhante a outro que tinha visto no festival de cinema a que tinha ido em Junho no Corto Creativo 07. Ela estava na audiência quando levei a cabo a minha apresentação nesse festival! Achou que tinha sido muito interessante. Estávamos aceites! Graças ao Yusuf.
Ainda não tinha tido oportunidade de ver o espaço que nos seria facilitado. Deslocamo-nos os três até ao fundo do corredor e entramos num auditório com capacidade para cerca de 250 pessoas com tectos de quinze, talvez vinte, pés de altura. Não estava à espera de um local tão amplo. A Sra. Molina informou-nos que o CEMAC estava a reestruturar a sua administração para o ano seguinte – tinham acabado de eleger um novo presidente para a câmara municipal – e, portanto, não poderia dar grande ajuda no que dizia respeito à angariação de uma audiência para o meu evento. Nada que me preocupasse. Agora tinha que escolher uma data para o evento. Tinha que coordenar a data com o Burt, que queria vir cá e filmar o evento ele próprio, e que tinha viagens de negócios já agendadas entre Santa Bárbara e Las Vegas.
Isto ia ser algo maior do que o que tínhamos planeado. Mas seria melhor: um evento revisionista organizado num auditório gerido pelo governo mexicano local. Molina informou-nos que a agenda respectiva a Novembro já estava completa, mas que ainda tinham algumas vagas para Dezembro. Não. Dezembro é uma época demasiado agitada para o nosso evento. Iríamos escolher uma data em Janeiro. A agenda para Janeiro estava completamente em aberto. Eu depois falaria com ela.
Havia uma série de questões a ter em consideração. O evento muito modesto sobre o qual tínhamos falado há semanas em Santa Bárbara estava a tornar-se em algo maior e mais significativo. Por fim, optamos pelo dia 18 de Janeiro, uma tarde de sexta-feira feira, às 18 horas. No início de Dezembro quando voltei para acertar a data com Marisol Molina, soube que ela já não trabalhava no CEMAC e que tinha sido substituída por um homem na casa dos 30, Raul Paulino. Tinha que começar tudo do início. A Molina falava inglês fluentemente. O Paulino pouco falava. Senti que estava a ter problemas em fazer-me compreender. Por fim explicou-me que eu tinha que redigir uma requisição ao CEMAC explicando o teor do projecto e a data em que queria utilizar as instalações do CEMAC.
Regressei no dia seguinte com um resumo da apresentação e um pedido para a levar a cabo no dia 18. Algo não estava bem. Mostrou-me uma requisição feita por terceiros e verifiquei que não queria uma página cheia de informações, mas apenas algumas linhas. Okay. No dia seguinte levei uma requisição breve e directa a pedir a utilização das instalações do CEMAC no dia 18. Era muito em cima da hora, informou-me. E mencionei que ia filmar o evento, e não referia isso na requisição. Voltei para casa, acrescentei isso à requisição e regressei ao CEMAC.
Uma vez lá, encontrei o Paulino na biblioteca com uma senhora com mais idade. Entreguei ao Paulino a minha quarta requisição, na qual incluía o facto de ir filmar o evento, e afastei-me um passo. O Paulino mostrou a requisição à senhora, falaram durante alguns minutos, e depois voltaram-se para mim todos sorridentes. Apresentou-me a senhora como sendo Esperanza Valdez, directora do CEMAC, e que a mesma agradecia a minha requisição e que a data de 18 de Janeiro estava bem. A senhora Valdez foi muito amigável para comigo, assegurou-me em espanhol que estava tudo certo e que o evento iria decorrer.
Saí da biblioteca a caminhar nas nuvens. Estava resolvido. Agora só nos faltava arranjar o público. Já estávamos na época natalícia. Iria esperar até à primeira semana de Janeiro. Depois mover-me-ia rapidamente. Criaria um panfleto em língua inglesa para distribuição em universidades e escolas secundárias de Rosarito. Desenvolveria uma lista de contactos por email, nos quais incluiria a comunicação social de Tijuana. Iria solicitar a presença do público de língua inglesa expatriados e oriundos da comunidade imigrante estadunidense da cidade. Pensei que pelo menos metade da audiência podia muito bem ser constituída por estadunidenses. Seria o mesmo espectáculo que levei a cabo no Corto Creativo 07. Estava ganho.
Já tinham acabado as comemorações de Natal e de Ano Novo. Era altura de trabalhar. O panfleto não era grande problema. Ainda iria precisar de ajuda para chegar aos campos universitários locais. Mas estava bem. Trabalhei nas listas. Podia imprimir o panfleto num dia e distribui-lo nos dois dias seguintes. Não havia problemas de tempo. Depois ocorreu-me colocar um anúncio no Baja Times, o jornal local em língua inglesa. Não tinha pensado nisso antes, o Baja Times tem uma tiragem de 12.500 exemplares a cada duas semanas. É um jornal bastante razoável. As suas notícias principais referentes aos EUA e ao México são retiradas de uma parceria com os Washington Post – Los Angeles Times. Esse material é reforçado por autores locais e da área da cidade do México. Telefonei ao departamento de publicidade e perguntei qual era a data limite para colocar um anúncio no próximo número. Informaram-me que era nesse mesmo dia, segunda-feira 7 de Janeiro, às 15 horas. Uh, oh.
Sentei-me ao computador e redigi um anúncio de quarto de página referente ao evento no CEMAC, formatei-o e levei-o ao Baja Times por volta das 13:30m. Pedi para o colocarem na página 3. Já era tarde para ser colocado na página 3, mas após alguns vais e vens, ficou assente. Teria que pagar um pequeno extra pela colocação especial. É normal. Fui informado de que me iriam telefonar na manhã seguinte para eu poder lá ir verificar as provas.
Na manhã seguinte recebi a chamada e desloquei-me de imediato à baixa, aos seus escritórios, no segundo andar de umas pequenas arcadas que vão até ao Hotel Rosarito. Tinham alterado o meu quarto de página horizontal para um anúncio vertical. Fui sublimemente bem feito. Congratulei-os. Informaram-me que o jornal iria para a gráfica nessa tarde. Estava pronto. Nada o poderia alterar. Estávamos lá. Estava tudo a correr muito bem. Decidi que era altura de ir ao CEMAC e perguntar qual seria o melhor modo de chegar aos campos universitários e a outras organizações locais. Tanto a Marisol como o Raul Paulino se tinham oferecido para me aconselharem, com base na sua experiência na promoção de eventos no CEMAC.
Desta vez descobri que embora o Raul Paulino estivesse na sua escrivaninha, agora estava também uma outra senhora na segunda escrivaninha. Esta foi muito simpática e conversadora, ao contrário do Paulino. O seu nome era Socorro Sanchez. Mostrei-lhe a prova do anúncio da página 3 do Baja Times, 12.000 cópias do qual estariam nas ruas no dia 14. Despendemos alguns minutos a rir acerca de alguma conversa insignificante acerca da frequência com que estavam a mudar a administração do CEMAC. “Sim”, respondeu ela em espanhol, “mas dizem que à terceira é de vez”.
Estávamos os dois ainda a rir quando tocou o telefone da escrivaninha do Paulino. Existiam duas escrivaninhas, mas apenas um telefone. O Paulino atendeu, depois passou o telefone à Sanchez. Decorreu um diálogo curto, três, talvez quatro minutos, e quando a Sanchez se voltou a sentar na sua secretária começou a questionar-me acerca dos meus antecedentes académicos. Expliquei-lhe que não era académico, mas um simples escritor, e que lido com temáticas pertinentes à liberdade de expressão.
Andamos com rodeios acerca disto por cerca de 10 minutos até que perguntei em espanhol: “Parece estar hesitante acerca de algo. Há algum problema?”
“Sim”, respondeu. “O CEMAC não vai autorizar a utilização das suas instalações para a sua conferência”.
“Porquê?”
“Porque o CEMAC não patrocina eventos referentes à temática do seu filme.”
“Soube isso agora mesmo pelo telefone?”
“Era a directora.”
A directora é Esperanza Valdez, a mesma senhora que tinha aceite pessoalmente a utilização das instalações do CEMAC, especificamente no dia 18 de Janeiro.
“O CEMAC trata de assuntos culturais de uma perspectiva mexicana.”
“É esse o problema?” questionei.
“Receio que sim.”
Okay. Não queria fazer queixinhas à Socorro Sanchez. Tinha acabado de a conhecer. A decisão não era dela. Por agora, não havia nada a fazer.
Voltei para casa numa pilha de nervos. Telefonei para o Baja Times, informei-os do que acontecera no CEMAC, e perguntei se podiam cancelar o anúncio. Estava disposto a pagar uma multa pelo tardio da hora. Informaram-me que era tarde demais. O jornal tinha fechado a edição na segunda-feira, hoje já era quarta-feira, era pura e simplesmente tarde demais.
E agora? Dentro da minha cabeça o raciocínio andava à roda. Antes de mais nada tinha que informar o Burt. Não o consegui contactar. Quais eram as probabilidades? Podia criar um evento com base no cancelamento deste. Doze mil exemplares do Baja Times estariam na rua três dias antes do evento cancelado. O anúncio estava na página três. Toda a gente o iria ver. Eu podia ir ao CEMAC na tarde de dia 18 e distribuir panfletos a anunciar que o evento tinha sido censurado. O Yusuf também podia lá estar para filmar o que se passava. Podia alugar uma sala alternativa e informar os recém chegados que o evento agendado para o CEMAC às 18h iria decorrer na sala alternativa às 19h. Podia aproveitar e distribuir outros materiais. Ao mesmo tempo, ainda podíamos utilizar o mesmo panfleto que tínhamos feito para o CEMAC, alterando-o de modo a indicar o novo endereço da sala alternativa, e distribui-lo tal qual estava planeado para o original. E podíamos convidar a comunicação social, recorrendo ao ponto de vista da imprensa livre para os envolver.
Guiei até ao Palacio Municipal e fui aos escritórios do Desarrollo Social (Serviços Sociais), dos quais o CEMAC é uma entidade. Pedi para falar com Esperanza Alvarez. Informaram-me que a mesma se encontrava numa reunião mas estaria de volta dentro de uma hora. Deixei o meu nome e número de contacto e pedi à secretária para me telefonar. Algumas horas depois telefonei à secretária. Disse que eu não me preocupasse, que iria marcar-me uma reunião. Não me telefonou. Na manhã seguinte telefonei novamente e a secretária informou-me novamente que iria marcar uma reunião. Não me contactou. Voltei a telefonar depois do almoço. Nenhuma sorte. Compreendi que não iria saber nada da Esperanza Valdez.
Quando o Burt telefonou falei-lhe do conceito da sala alternativa. Não ficou impressionado. Ele pareceu não estar convencido de que eu conseguia concretizar isso. Não pude dar-lhe a certeza de que o conseguia fazer. Ele não achou que valesse a pena despender dois, talvez três dias, do seu tempo, vir filmar um não-evento e voltar para o trabalho que é o seu ganha-pão. Mas teve uma ideia. Se eu pudesse encontrar um local que pudesse dar o seu nome, podíamos organizar uma data para uma conferência acerca da cultura mexicana, talvez um debate acerca da imigração, e prometer alguns extras. Os “extras” seriam O Grande Tabu. Seria algo completamente insuspeito. Seria tarde demais para os censores. Uma vez que a imigração é um tema pelo qual muitos mexicanos se interessam, teríamos público. Tínhamos que encontrar um modo de introduzir O Grande Tabu. Uma ideia muito imaginativa. Ousada. Muito difícil de concretizar. Disse-lhe que ia pensar melhor.
Telefonei ao Yusuf, alguns dias mais tarde encontramo-nos na cafetaria Cappuccino na baixa. Expliquei-lhe tudo o que tinha acontecido, depois falei-lhe da ideia do Burt. Eu ainda não tinha acabado quando Yusuf desatou a rir e disse-me: “Vamos fazê-lo.” Ele nem precisou pensar. Compreendeu tudo de imediato. O CEMAC tinha-se “metido” connosco (o Yusuf fala inglês, tal como o Alfredo), e agora nós íamos “meter-nos” com o CEMAC. Ele iria ser a minha cobertura.
Okay. Mesmo assim eu ainda não estava muito entusiasmado com a ideia de voltar ao CEMAC. Mas passei essa informação ao Burt. O Burt ficou excitadíssimo. Pensei para mim mesmo, não gosto de enganar as pessoas. Mas se alguém o merece, são as pessoas do CEMAC. Que outra opção tinha eu? Apenas o contacto com a prima professora do Alfredo. Talvez pudesse disponibilizar-me uma das salas onde dá aulas. Pouco provável. Estamos numa cidade pequena. As elites culturais conhecem-se todas umas às outras, ou conhecem alguém que conheça quem elas não conhecem.
O meu cérebro ainda andava à roda. O Yusuf ia auxiliar-me a levar a cabo a tarefa do CEMAC. Havia a prima professora do Alfredo. O cérebro rodava, mas em círculo, percorrendo sempre o mesmo cenário. Foi então que a Paloma chegou do trabalho no outro lado (normalmente chega cá por volta da meia-noite), e disse-me que no trabalho o seu professor de dança do 9º ano tinha passado por lá e a tinha reconhecido. Conversaram. O professor agora dá uma aula semanal no CEMAC.
“Que coincidência”, disse a Paloma o professor de dança. “O meu pai ia exibir um filme no CEMAC na sexta-feira passada, mas cancelaram.” A professora disse que estava ao corrente de tudo isso. O CEMAC cancelou o filme porque souberam que era “pró-Hitler.” Não só isso, mas também há alguns meses alguém tentou exibir um filme pró-Hitler no CEMAC, isso tinha sido descoberto a tempo, e agora achavam que eu também tinha estado por trás disso.
Não só eu tinha tentado exibir por duas vezes um filme “pró-Hitler” no CEMAC, mas uma mera professora que não faz parte da administração do CEMAC, que só lecciona lá uma vez por semana, já sabia o que tinha acontecido e sabia também dum evento prévio que só existiu na imaginação de alguém. Se ele sabia da história, estando fora do círculo das pessoas que gerem o CEMAC, e sabia acerca do rumor de um evento anterior, então toda a gente em Rosarito que era alguém também o sabia. Relaxei. Compreendi que as hipóteses do Yusuf conseguir levar a cabo o evento que tínhamos combinado estavam fora de questão. Não havia nada a fazer. Na verdade, embora estivesse um pouco abismado, senti-me aliviado. Telefonei ao Burt e disse-lhe que não voltaria ao CEMAC. Ele disse okay. Que mais podia ele dizer?
E assim foi.
Duas manhãs mais tarde estava eu no pátio a dar de comer aos periquitos – temos cerca de trinta espalhados por duas jaulas – quando me veio à mente uma ideia completamente do nada. Sem quaisquer preliminares. Num momento não estava lá nada, no momento seguinte lá estava a ideia. Veio-me à memória a imagem de um tipo local com o qual me cruzei ocasionalmente em situações sociais nos últimos cinco ou seis anos. Mesmo naquele momento, nem conseguia acreditar que a minha memória tivesse chamado a sua imagem. Como é que a memória “pensou” onde devia ir? Num momento estava a dar água aos periquitos, no momento seguinte lá estava a imagem dele perante mim. Não houve qualquer preparação preliminar. Num momento nada poderia estar mais distante da minha mente, no seguinte já lá estava. Nunca tinha sequer considerado em fazer fosse o que fosse com ele. Agora, num pestanejar de memória, imaginava-nos a trabalhar em conjunto para levar a acabo a apresentação que seria exemplar na história da performance revisionista. Não é esta a história que tencionava contar-vos este mês. A minha intenção era de vos contar a história do nosso evento no CEMAC. Mas a história que vos contei aqui foi a que aconteceu. Agora, no próximo mês…
Traduzido do Smith’s Report nº 147, Fevereiro de 2008